Não somos os erros que cometemos

Nós não somos as nossas falhas, não somos aquilo que deixamos por fazer, nem somos os erros que cometemos. Ou se calhar para nós, no nosso subconsciente somos. Se calhar a falha pesa e irá pesar sempre mais do que o “remedeio” ou tudo aquilo que fizemos bem. Mas não seria suposto.

Nós não somos as nossas falhas, não somos aquilo que deixamos por fazer, nem somos os erros que cometemos. Aliás, espero que um dia não seja recordada por aquilo que me esqueci, pelas decisões que tomei de forma errada, por aquilo que fiz mal quando estava a crescer.

Mas mais do que não ser recordada por isso, quero um dia olhar para trás e perceber que ao fim desses anos todos aprendi que os erros são normais, que as falhas são importantes para o nosso crescimento e que é suposto batermos com a cabeça na parede e nos desiludirmos e frustrar-nos connosco próprios (e com os momentos em que nos apercebemos que fizemos mal). Mas que passa.

Que fica apenas a memória para não se voltar a repetir. E que também nos devemos perdoar por aquilo que, na vida, não acertamos à primeira.

Um dia…

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You do you: um bonito palíndromo

Lembro-me de uma aula de Estudo Acompanhado em que o professor me perguntou o qual era o significado de “singularidade” numa frase qualquer. Não me recordo da frase, mas lembro-me que, não sei se foi dos nervos – porque era a única que ainda não tinha o sinal mais na tabelinha -, se por não saber mesmo, mas respondi exatamente o oposto daquilo que seria o correto. Este episódio nunca mais me saiu da cabeça e, consequentemente, a “singularidade” também não.

A verdade é que sempre tive um bocado de dificuldade de me relacionar com a “singularidade”. Sempre achei que tinha de me encaixar em algum lado, que não poderia ser marginal aos grupos que estavam instituídos (principalmente na escola). Sempre achei que deveria gostar, ser e fazer o que as pessoas que eu “admirava” gostavam, eram e faziam. Acho que todos passamos por fases destas, em que sentimos que para pertencermos a algum lugar temos de ser iguais aos outros, e é triste pensar que na idade em que ainda nos estamos a moldar como pessoas, acabamos por ser moldados pelos outros.

Hoje, olho para a vida, e volto àquele dia em que errei no significado da “singularidade”. Hoje percebo que não temos de estar todos dentro do mesmo círculo e que nem só de um ou dois círculos se faz a vida. Hoje percebo que se calhar aos 12 anos não estava preparada para entender o verdadeiro significado de “singularidade” e que aos 22 já faz muito mais sentido. Hoje acredito que os nossos gostos são os nossos gostos e que, não é por serem diferentes dos gostos de outra pessoa, que somos menos válidos. Hoje sei que não me posso sentir diminuída por ninguém, por ser de determinada forma ou por gostar de um tipo de música, livros ou filmes diferentes dos dessa pessoa.

Mais importante: hoje sei que não me posso sentir diminuída por mim própria por não gostar do mesmo tipo de música, livros ou filmes que outro alguém.

Acredito que quem se quiser encaixar em nós e na nossa maneira singular de ser, o fará; nós só temos de nos aceitar e de aceitar que há quem não se queira encaixar.


O meu “sítio certo, à hora certa”

Seria hipócrita se dissesse que acredito que andamos neste Mundo sozinhos. Mas também seria hipócrita se dissesse que me rejo por alguma religião em específico. Frequentei a catequese e a igreja católica, mas com o avançar dos anos, comecei a questionar muita coisa e fui-me afastando um bocadinho daquilo que é a igreja e a religião num todo. Contudo, acredito que há algo superior a nós. Também não lhe vou chamar destino, porque não acho que haja algo traçado. Isto é, não acredito, que à partida, quando vimos ao Mundo, tenhamos uma vida escrita. Acredito sim que muito do nosso percurso somos nós que construímos, o que não invalida que durante esse percurso possamos ter mais ou menos sorte em estar no chamado “sítio certo à hora certa”. Por outro lado, também acho que “às vezes os astros se alinham” e as coisas acontecem. Lá está, se calhar é mesmo isso do “sítio certo, à hora certa”.

Porém, e isto pode parecer muito contraditório, gosto de pensar que a vida sabe o que faz nas suas voltas e vindas. Gosto de pensar que, de alguma forma, a vida me vai dando ou tirando consoante aquilo que estou a precisar. Gosto de pensar que a vida é aquela amiga que me atira para o fundo para abrir os olhos, ou que me puxa lá para cima para me recompensar.

No fundo gosto de pensar que a energia da vida rema comigo, consoante aquilo que eu vou precisando. Às vezes, pode não fazer sentido no momento, mas se calhar um dia vai fazer. Se calhar este é o meu “estar no sítio certo à hora certa” ou, então, acredito apenas com muita força que a vida sabe o que faz. Aprendi a confiar que tudo acaba por encaixar-se. E não tem de ser à força.


O resto da tua vida

Não sei se já viram este vídeo, mas se ainda não o fizeram aconselho-vos totalmente a fazê-lo. Não vou explicar no que consiste, nem de onde vem o “o resto da tua vida”. Não vou explicar de quem é este olho, nem porque é que de repente comecei a seguir o Carlos Coutinho Vilhena, quando nunca tinha assistido a nada dele. Porque acho que é assim que faz sentido, para isto ter o verdadeiro impacto.

Mas indo ao que interessa e tentando evitar ao máximo qualquer spoiler. Sou o tipo de pessoa ingénua que acredita piemente na sinceridade de tudo aquilo que envolve este vídeo. E sou também o tipo de pessoa que se emocionou ao vê-lo. Cresci a assistir aos Morangos e a achar que as pessoas da televisão é que são felizes e bem sucedidas. Mas, lá está, entretanto uma pessoa apercebe-se que nem tudo o que vê dos outros é a realidade, porque, tal como nós, os outros só vêm de nós aquilo que nós deixamos ver. E que não é por aparecerem nas revistas e na televisão que essas pessoas são mais felizes que nós, que levamos uma vida menos pública.

E acreditei piemente neste vídeo e emocionei-me ao vê-lo. Porque foi mais um abre olhos para o facto de que “as pessoas da televisão” não têm as vidas perfeitas que nós imaginamos. E porque me emociono facilmente com a generosidade das pessoas e com aquilo que o ser humano consegue fazer de bom. Porque num mundo em que as notícias só mostram desgraças, às vezes é preciso um vídeo que por mais fabricado que possa ser, nos faça acreditar que ainda não vivemos num mundo só de más notícias.

Mas lá está, se calhar é só a minha ingenuidade a falar mais alto e isto não passa de uma história muito bem contada. Quero acreditar que aquilo é verdade e verdadeiramente generoso. Quero acreditar que não é só uma campanha de publicidade e marketing fantástica.

E quero acreditar que não há-de faltar muito até sair o próximo vídeo.

A minha relação mais bonita

Um dia ganhei coragem e criei este blog e desde esse dia que tenho sido muito feliz.

Lembo-me perfeitamente: era um caderno de capa dura cor-de-rosa – como é óbvio – tinha uns desenhos, dizia Miss B na capa e trazia um cadeado – como é óbvio também. Pegava nele à noite, escrevia e trancava-o sempre. Foi o meu diário durante uma das melhores fases da minha vida e uma miúda de 14 anos com um diário nas mãos tinha, efetivamente, muito para escrever. Sinceramente, não sei se ele ainda anda por cá. Foi nessa altura também, que me atrevi a escrever uma espécie de conto. Tinha para aí umas quatro ou cinco páginas e tinham que ver com os meus dramas do coração. Andei de volta daquele documento do word durante para aí uma semana e recordo-me que fiquei tão orgulhosa no fim, que me atrevi a imprimir e a ler para os meus pais.

Foi também um bocadinho antes desta fase que me agarrava ao computador a criar blogues. Porque isto ainda era tudo um mundo novo e ler as vidas dos outros fascinava-me sempre. E porque queria escrever mais. Mas depois tinha sempre muita vergonha e muito medo que alguém descobrisse que aqueles textos eram meus e nunca mostrava a ninguém. E o processo acabava sempre por ser o mesmo. “Apagar definitivamente este blog”. Tenho pena que tenha sido esse o destino de todos eles, porque hoje iria gostar de ler e de me rir das minhas parvoíces.

E depois uma pessoa cresce e sempre que vai a algum lado aquilo que quer comprar é um caderno – tal como herdei do meu pai. E uma caneta. E depois esses cadernos começam a fazer parte dos essenciais de todos os dias, porque às vezes a cabeça tem tanta coisa e precisa de ser esvaziada. E depois, tantos anos depois, percebe que os cadernos que sempre fizeram parte da sua vida, sempre foram o seu lugar seguro.

Há alturas em que ando mais descrente e arrumo as canetas. Há alturas em que ando mais descrente e dá-me mais vontade de ir buscar as canetas. Há alturas em que ando triste e me dá para escrever tudo cá para fora. E depois há outras alturas em que ando triste e só me apetece pegar fogo aos cadernos. E depois estou muito feliz e não sinto necessidade de escrever. E depois há alturas em que estou tão feliz que preciso de escrever para não explodir.

Eu e a escrita temos esta relação meia bipolar. Tanto tenho muita vontade de escrever sobre tudo e sobre nada, como só me apetece arrumar tudo e nunca mais pegar em caderno nenhum. Mas hoje, sei que esta é a relação mais bonita da minha vida. Porque, como disse, é o meu porto seguro. É, sem dúvida, uma paixão grande. É o meu álbum de memórias. Porque se há pessoa nostálgica, essa pessoa sou eu – e quem me conhece bem está neste momento a abanar com a cabeça e a revirar os olhos – e se há coisa que adoro é reviver o passado, através de mim própria. E os meus textos são para mim, a melhor forma de o fazer. Porque volto imediatamente àquele dia, àquele sítio, e sinto tudo outra vez.

Faz este mês três anos que criei um blog e o qual ainda não sofreu o “apagar definitivamente este blog”. Aprendi a deixar de ter vergonha do que escrevo e a ter a coragem de carregar no botão “publicar”. E desde esse dia que tenho sido muito feliz. Porque me obrigo a escrever mais, porque me obrigo a deixar a preguiça de lado para deitar cá para fora o que quero e porque, por isso, este blog tem sido o reflexo da minha pessoa nos últimos três anos.

Gosto muito dele e hoje, três anos depois, tenho muito orgulho do que tenho criado e de ter conseguido contrariar todas as minhas vontades de o fazer desaparecer da internet.


Amesterdão, 2019

Amesterdão era um sonho.

Quem me conhece bem sabe que Nova Iorque está no topo da minha bucketlist de sítios a conhecer e, aliás, dizia muitas vezes que a probabilidade de chorar no dia em que pisar aquela cidade é muito grande. Acabava por exagerar sempre – apesar de que vindo de mim tudo é possível.

Amesterdão era a minha Nova Iorque europeia. E percebi que a questão do choro não era um exagero.

Há momentos que guardamos na nossa memória para sempre e quero acreditar que os momentos felizes são aqueles que ficam mesmo. Ou pelo menos façamos de conta que sim. Eu, por exemplo, ainda me arrepio quando me lembro do dia 20 de Novembro de 2017 na Lapónia, ou do dia 17 de Setembro de 2018 quando soube que estava licenciada. Situações totalmente diferentes, mas que me deram uma sensação de felicidade plena.

Junta-se agora o dia 7 de Março de 2019 quando vi Amesterdão pela primeira vez. Há coisas que são irracionais e que, por mais que queiramos não conseguimos controlar. Para mim, Amesterdão era um sonho. E no momento em que vi aquela cidade pela primeira vez e percebi que era muito melhor do que tinha imaginado, tive aquela sensação de felicidade plena outra vez.

Há coisas que nos marcam para sempre. Esta viagem será, de certeza, uma dessas coisas. Aprendi que os laços não se criam fisicamente e que a distância, por mais que possa atrapalhar muita coisa, não os quebra.

Amesterdão era um sonho. E foi tão melhor.

Sobre desporto no geral e compromisso em particular

Fui atleta de Basquetebol federado durante cinco anos. Na verdade, escrever isto faz-me recuar uns belos anos e voltar à altura em que chegava a casa todos os dias às 21h30. Quem me conhece nos tempos que correm fica na dúvida se isto é efetivamente verdade e sai sempre a piada acerca da minha altura. Mas é verídico – joguei Basquetebol durante cinco anos e fui feliz assim.

Tenho de admitir que pouco ou nenhum talento tinha para o jogo. A minha técnica não era má, mas quando o cronómetro começava a contar, começavam os problemas. Mas também tenho de admitir que dedicação era coisa que não me faltava. Não faltava aos treinos, não faltava aos jogos – mesmo quando não era convocada – e empenhava-me mesmo naquilo. E admito hoje, todos estes anos passados, que havia muitas vezes que a última coisa que me apetecia era sair de casa quer fosse para treinar, quer fosse para jogar ao fim de semana. Mas aquele era o meu trabalho. Ou vá, não lhe chamemos trabalho, mas era um compromisso que tinha com aquelas pessoas.

Desde que deixei de jogar que nunca mais voltei a sentir isto. Tinha a escola, a faculdade, mas não era o mesmo tipo de sentimento de comprometimento que sentia na altura. O mesmo se passava com qualquer tipo de atividade física que fizesse – que durante estes anos todos se resumiu ao ginásio.

Até que… comecei a correr. Aliás, até que comecei a ver correr e pensei que era uma moda engraçada e que também gostava de aderir à tendência. Estavamos em 2014 quando este bichinho se começou a desenvolver dentro de mim. E depois comecei a ler e li muitas vezes que correr ajudava a perder barriga. Alto e pára o baile que se ajuda a perder barriga eu também quero. Assim foi. Comecei a pensar que deveria começar a correr e nesse ano coloquei uma meta na minha “life bucketlist” que envolvia, precisamente, correr. E se em 2014 comecei a pensar em começar a correr, em 2017 fiz a minha primeira prova. E se no início era só uma moda fixe à qual eu gostava de aderir, depois de fazer essa prova a coisa sobe toda para um outro nível. Corri 10km na altura, na corrida do dia do pai, e lembro-me perfeitamente que cruzei a meta a sentir-me no topo do Mundo. Parecia que tinha acabado uma maratona e o relato que aqui fiz sobre esse dia, mostra exatamente isso.

Qualquer pessoa que leia isto vai pensar que foram só 10km. Que foi apenas uma corrida, porque na verdade não voltei a fazer nenhuma prova depois disso. Para mim, esses 10km foram o resultado de três meses de trabalho e dedicação.

E é por isso que adoro correr. Porque é um compromisso que faço comigo própria de cada vez que começo. Porque me sinto realizada de cada vez que ganho a mim própria, de cada vez que contrario aquilo que a minha mente me tenta convencer a fazer. E orgulhosa de ter conseguido aquilo a que me propus ou até mais. E porque, por mais cliché que seja aquilo que dizem, é um tempo em que estou ali sozinha a pensar nas minhas coisas, passo atrás de passo.

Há uma semana atrás inscrevi-me para aquele que é um dos meus maiores objetivos deste ano e para aquele que é um grande passo rumo a um dos meus sonhos. Sei, que no que depender de mim, em Setembro irei correr uma Meia Maratona, porque aquela menininha que chegava a casa tarde dos treinos ainda aqui anda. E as saudades que ela tinha de sentir o êxtase depois de marcar um cesto. É mais ou menos assim no fim de cada corrida.