Um dia ganhei coragem e criei este blog e desde esse dia que tenho sido muito feliz.
Lembo-me perfeitamente: era um caderno de capa dura cor-de-rosa – como é óbvio – tinha uns desenhos, dizia Miss B na capa e trazia um cadeado – como é óbvio também. Pegava nele à noite, escrevia e trancava-o sempre. Foi o meu diário durante uma das melhores fases da minha vida e uma miúda de 14 anos com um diário nas mãos tinha, efetivamente, muito para escrever. Sinceramente, não sei se ele ainda anda por cá. Foi nessa altura também, que me atrevi a escrever uma espécie de conto. Tinha para aí umas quatro ou cinco páginas e tinham que ver com os meus dramas do coração. Andei de volta daquele documento do word durante para aí uma semana e recordo-me que fiquei tão orgulhosa no fim, que me atrevi a imprimir e a ler para os meus pais.
Foi também um bocadinho antes desta fase que me agarrava ao computador a criar blogues. Porque isto ainda era tudo um mundo novo e ler as vidas dos outros fascinava-me sempre. E porque queria escrever mais. Mas depois tinha sempre muita vergonha e muito medo que alguém descobrisse que aqueles textos eram meus e nunca mostrava a ninguém. E o processo acabava sempre por ser o mesmo. “Apagar definitivamente este blog”. Tenho pena que tenha sido esse o destino de todos eles, porque hoje iria gostar de ler e de me rir das minhas parvoíces.
E depois uma pessoa cresce e sempre que vai a algum lado aquilo que quer comprar é um caderno – tal como herdei do meu pai. E uma caneta. E depois esses cadernos começam a fazer parte dos essenciais de todos os dias, porque às vezes a cabeça tem tanta coisa e precisa de ser esvaziada. E depois, tantos anos depois, percebe que os cadernos que sempre fizeram parte da sua vida, sempre foram o seu lugar seguro.
Há alturas em que ando mais descrente e arrumo as canetas. Há alturas em que ando mais descrente e dá-me mais vontade de ir buscar as canetas. Há alturas em que ando triste e me dá para escrever tudo cá para fora. E depois há outras alturas em que ando triste e só me apetece pegar fogo aos cadernos. E depois estou muito feliz e não sinto necessidade de escrever. E depois há alturas em que estou tão feliz que preciso de escrever para não explodir.
Eu e a escrita temos esta relação meia bipolar. Tanto tenho muita vontade de escrever sobre tudo e sobre nada, como só me apetece arrumar tudo e nunca mais pegar em caderno nenhum. Mas hoje, sei que esta é a relação mais bonita da minha vida. Porque, como disse, é o meu porto seguro. É, sem dúvida, uma paixão grande. É o meu álbum de memórias. Porque se há pessoa nostálgica, essa pessoa sou eu – e quem me conhece bem está neste momento a abanar com a cabeça e a revirar os olhos – e se há coisa que adoro é reviver o passado, através de mim própria. E os meus textos são para mim, a melhor forma de o fazer. Porque volto imediatamente àquele dia, àquele sítio, e sinto tudo outra vez.
Faz este mês três anos que criei um blog e o qual ainda não sofreu o “apagar definitivamente este blog”. Aprendi a deixar de ter vergonha do que escrevo e a ter a coragem de carregar no botão “publicar”. E desde esse dia que tenho sido muito feliz. Porque me obrigo a escrever mais, porque me obrigo a deixar a preguiça de lado para deitar cá para fora o que quero e porque, por isso, este blog tem sido o reflexo da minha pessoa nos últimos três anos.
Gosto muito dele e hoje, três anos depois, tenho muito orgulho do que tenho criado e de ter conseguido contrariar todas as minhas vontades de o fazer desaparecer da internet.








