Em 2004 não nos estava destinado. Eu tinha 8 anos e lembro-me de pouco. A defesa sem luvas do Ricardo, o pénalti marcado pelo próprio e as lágrimas do Cristiano Ronaldo na final contra a Grécia. Sinceramente não me lembro do sentimento com que fiquei. Não me lembro de ter chorado ou ficado triste, não me lembro de onde vi aquele jogo diabólico nem me lembro da reação do meu pai. Mas sempre que via imagens daquele europeu, sempre que via aqueles dois penaltis protagonizados pelo Ricardo arrepiava-me. Sempre. Depois tivemos mais 2 europeus e nenhum me marcou assim para lá do (dito) normal. Era mais um europeu, mais não sei quantos jogos da seleção. Não me passaram completamente ao lado, mas também não me envolveram assim espetacularmente.

E depois chegamos a 2016. Uma seleção da qual conhecia apenas meia dúzia de jogadores, um treinador que nunca me tinha chamado muita atenção. E estávamos a chegar a Junho. O europeu aproximava-se a passos largos e eu começava a ser contagiada por uma energia brutal. Algo me dizia que este europeu ia dar que falar, quanto mais não fosse pelo envolvimento do país. Criou-se um movimento no facebook em que “nos podíamos registar como adeptos”, o Pedro Abrunhosa adaptou a música dele, fez-se o melhor vídeo motivacional que há história (obrigada benfiquista), a Meo pôs o Cristiano Ronaldo a tocar às campainhas e eu que há 12 anos era uma chavalinha, este ano sentia-me contagiada. Era desta!

Uma fase de grupos miserável e a cada jogo que passava eu perguntava ao meu pai se mesmo assim conseguíamos passar aos oitavos. Lá fomos fazendo o (im)possível. Nos oitavos conseguimos acabar o jogo empatado aos 90′, abençoado Quaresma que aos 117′ fez o derradeiro. Lá fomos fazendo o (im)possível. Nos quartos conseguimos acabar o jogo empatado aos 90’… e aos 120′. Rui Patrício salva-nos nos penaltis e Quaresma, mais uma vez, só fez o que lhe competia – e que tanto. Lá fomos fazendo o (im)possível. Chegamos às meias e Cristiano Ronaldo e Nani conseguem meter os dois a bola na baliza e pela primeira vez não conseguimos acabar o jogo empatado aos 90′. Lá fomos fazendo o (im)possível. E chegamos à final. Sim nós, aquele bocadinho de terra longe do centro da europa, os pequeninos, os que levam chapadas da UE e do FMI e montes de outras coisas. Sim nós os nojentos!

E chegámos à final… um jogo imposto pelos franciús. Em completa desvantagem nas bancadas bem sabíamos que ia ser difícil. E foi… durante 90′. Cristiano Ronaldo lesiona-se e ficamos todos com o coração apertadinho. E sempre a gritar uns “aiii” ou “shhh que sorte” sempre que os azulinhos faziam habilidades. Mas nós fomos treinados para defender e na nossa baliza ninguém entrava. Nem ninguém, nem a bola. E, mais uma vez, na final conseguimos acabar o jogo empatado aos 90′. E o coração era obrigado a aguentar as taquicardias. 109′ e fazemos o (im)possível. Foi o que sempre fomos fazendo.

Fomos nojentos, jogamos feio, não soubemos jogar à bola, não merecíamos estar na final do Euro 2016. Foi o que fomos ouvindo por aí. Mas chegamos à final. E isso ninguém nos podia tirar. E olhem, uma novidade, a vitória dessa final que não merecíamos também ninguém nos tira. Ora então vamos lá ver… Se fosse a Eslováquia, a Irlanda ou a Irlanda do Norte, eles também não mereciam a final?

Fomos um osso duro de roer (sim ninguém nos ganhou ora anotem) e este ano nós merecíamos. Por todo o percurso que fizemos, por toda a nossa história, por tudo o que já passamos futebolisticamente falando ou não.

Sinceramente, gostava de ter palavras para exprimir o que senti quando o árbitro deu o apito final no domingo ou quando vi o Cristiano Ronaldo a levantar a taça ou quando acompanhei a nossa seleção “na chegada a casa” pela televisão e vi aquele mar de gente por Lisboa fora. Foi lindo, foi emocionante e acho que vai ser para sempre. Adorava poder explicar à minha mãe porque é que estava com os olhos cheios de água e aos saltos no sofá quando ela chegou à sala depois do jogo já ter acabado. E a verdade é que este Verão vai ficar na memória de todos os portugueses. A verdade é que este grupo fez história. E desta vez, pela primeira vez, não “estivemos quase lá” nem “foi por pouco”. Desta vez não ficamos com o mérito de sermos os primeiros dos últimos. Desta vez estivemos lá em cima caramba. Desta vez fomos nós a subir aquelas escadas felizes. Desta vez fomos nós a levantar aquela taça. Desta vez não lhe passamos ao lado. E que lindo que foi. E quão sortuda sou por um dia poder dizer aos meus filhos e aos meus netos que eu vi o nosso país ser campeão europeu pela primeira vez… e contra a “imbatível” e fortíssima França.

“E se do outro lado estiverem 11 canhões apontados a ti, lembra-te que do teu estão 11 milhões a marchar contigo!” 

E agora uma mensagem para uns amigos especiais:

Merci pour tout le “soutien”. Nous sommes très dégoûtant. Très très dégoûtant. Jeter dans votre pelouse est en fait… dégoûtant. Mais insulter l’ adversaire me parece un peu dégoûtant aussi. Après tout, merci. Le feu d’artifice était magnifique.

(Obrigada por todo o “apoio”. Nos somos mesmo nojentos. Mesmo muito nojentos. Vomitar no vosso relvado é realmente… nojento. Mas insultar o adversário parece-me um bocadinho nojento também. Apesar de tudo obrigada, o fogo de artifício foi lindo!)

(peço desculpa, mas fui traduzir ao google, e já tive muito trabalho)

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