Cheguei a pensar que as resoluções de ano novo eram feitas para não serem cumpridas. Estava enganada! Eu é que era apenas preguiçosa ou pouco dada a disciplina e, por isso, raros eram os anos em que cumpria alguma coisa daquilo a que me tinha proposto no início do ano.

O ano passado coloquei pela primeira vez na minha lista das resoluções que queria fazer a minha primeira corrida. Corrida a sério, com direito a inscrição, dorsal e tempo de chegada. Os astros não se alinharam, a minha vontade de me mexer também não e não foi durante 2016 que esta resolução se cumpriu. Lá está, as resoluções de ano novo eram feitas para não serem cumpridas.

Este ano (ou o ano passado…) tinha decidido que ia voltar a pôr “fazer a minha primeira corrida” na lista de resoluções de ano novo. O máximo que podia acontecer era voltar a ficar apenas no papel.

Em Janeiro veio a época de exames, vieram os quilinhos extra do Natal, vieram os dias “livres” para eu gerir como bem me apetecesse. O ginásio começou a fazer parte da rotina – algo que deixou de me custar fazer – e não sei bem se foi algum clique que se me deu, se foi apenas maluquice, mas lembrei-me que dia 19 de Março havia uma corrida de 10km, no Porto, que a minha mãe já tinha corrido o ano passado. Mentalizei-me e a minha mãe inscreveu-nos às duas. Procurei planos e consegui um feito “à minha medida” e que me dizia que dia 19 de Março ia conseguir acabar a corrida em 1h07min. “Por mim tudo ótimo, desde que sobreviva” pensei eu.

Dia 31 de Janeiro, tal como ditava o plano, lá fui eu para a passadeira correr os 2km que me competiam. Nessa semana seguiram-se mais 4km (2km em dois dias diferentes). Na semana seguinte tinha de correr 4km e se correr durante 15min numa passadeira é suportável correr mais de meia hora não ia dar para mim. Fui correr para a rua. Lembro-me perfeitamente que nesse domingo estava a chover e demorei para aí 1h para sair de casa. Fiquei surpreendida comigo própria, mas lá fui eu correr à chuva. Seguiram-se muitos 5km, 7km, 8km.

Cada distância nova assustava, mas o pior foi mesmo semana passada. Domingo da semana passada, dia 12 de Março, o plano ditava 10km. Tencionava ir correr logo de manhãzinha para a marginal, para ver se custava menos, mas nem tudo corre como prevemos e teve de ser de tarde. Não sei se foi da nata que comi com o café depois de almoço, se foi dos “nervos” ou da direção do vento (…), mas comecei a ficar com azia enquanto chegava ao sítio onde ia correr. Como previa corri os 10km inteirinhos com uma ardência no estômago, quase insuportável, que me obrigou a parar várias vezes e a pensar mesmo em deixar os 10km para segunda-feira. Mas não, os 10km eram para ser feitos domingo e não segunda-feira. Lá me fui aguentando, com uns metros mais penosos que outros. Consegui fazer os 10km, apesar de muito sofridinhos, num tempo líquido de 1h05min. Com todas as pausas, dores e coisas mais lá pelo meio. Fiquei muito feliz; era a primeira vez que corria 10km. Mas isso não me descansou, porque tinha feito várias pausas (forçadas) durante a corrida e dia 19 não tencionava (mesmo!) fazer pausas.

Captura de ecrã 2017-03-20, às 18.23.58

A semana que se seguiu foi de algum “descanso”, mas se tinha feito 10km com treinos nas pernas, então no domingo também iria ser capaz. Só não treinei no sábado, como é meu normal.

Quando se treina para uma prova (por mais pequena que seja – e esta é muito pequena) criam-se sempre expectativas em relação ao tempo em que vamos conseguir concretizar a mesma. Eu também as fui criando. O ritmo médio de todos os meus treinos andava ali entre os 6:30min/km ~ 6:40min/km e, por isso, estabeleci que ‘gostava’ de acabar os 10km no máximo em 1h05min. A minha mãe, que o ano passado fez esta prova em 1h04min e que corre habitualmente há mais um ano e meio, estava (ainda está) mal de uma perna, mas sempre disse que queria bater o tempo que tinha feito o ano passado e, posto isto, sempre lhe disse que no dia da corrida cada uma seguia o seu ritmo.

Domingo chegou e deixei as natas e a canela de lado não fosse ter outro ataque de azia. Era dia do pai e ele estava mais entusiasmado que nós. O nervosismo de sábado tinha passado, mas a 1h05min não me saía da cabeça. Às vezes (muitas) sou um bocadinho competitiva, por isso se fizesse mais que o tempo que tinha na cabeça sabia que ia ficar muito desiludida.

Muita confusão no queimódromo e as 10 horas (hora em que era dada a partida) iam-se aproximando. Preparar a app no telemóvel, não fosse o gps estar desligado e aquilo não contar nada, e de repente foi só começar a correr. Começamos com uma descida e até aos 5km o percurso foi sempre bastante plano. Mas eu sabia que aos 5km ia ter 2km da Avenida da Boavista para subir e a minha mãe tinha-me preparado para a última subida da corrida. Quando cheguei à rotunda da Anénoma olhei para o relógio e estava a fazer 5:45min/km. Fiquei parva, mas pensei que tivesse sido apenas do facto de até ali ter sido sempre a descer. Tentei não acelerar, dadas as subidas, mas também não queria perder aquele ritmo. Sempre que olhava para o relógio ficava surpreendida com o ritmo a que ia e consegui chegar à primeira subida com 5:50min/km. Estava ótimo. Por vezes, lá perdia a minha mãe de vista, mas tentava dizer-lhe que continuando assim ela ia fazer (muito) menos que no ano passado. Passei pelo meu pai e pela minha irmã a meio da subida e o sentimento que se sente é incrível. A primeira subida estava feita, mas ainda faltava uma. Consegui manter sempre o ritmo mais ou menos constante, mesmo com a última subida, e quando cheguei aos 9km percebi que ia bater em muito as minhas expectativas. Meti a minha música preferida para correr e aquele último km a descer foi incrível. A minha mãe acelerou para acabarmos juntas e quando passamos a meta o relógio marcava 1h20seg. Dado que este tempo começa a contar quando sai o primeiro corredor, aquele não era o nosso tempo líquido e quando olhei para o meu relógio e vi que marcava 58min15seg fiquei ainda mais feliz. Foi ótimo e ainda por cima porque a minha mãe bateu em muito o tempo do ano passado.

Captura de ecrã 2017-03-20, às 18.24.40

Foi uma sensação incrível, das melhores que já senti, e gostava que fosse mais explicável. É completamente verdade que correr está na moda, mas também é verdade que a partir do momento em que se experimenta esta sensação de superação e orgulho próprio é fácil de perceber que não é só moda. Quando nos esforçamos e treinamos com disciplina, o prazer dos resultados é incrível. É preciso força de vontade e conseguir estabelecer prioridades. Depois disso é levar isto a sério. Porque no fim de contas é mesmo mesmo compensador.

Ontem foram 10km, um dia destes quem sabe…

(E sim, parece que estou a descrever uma maratona, mas o trabalho foi tanto que esta é a única descrição possível.)

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