Não penso em ti todos os dias, a verdade é essa. Principalmente desde que o demónio veio cá para casa, pensar em ti deixou de ser algo diário. Não por esquecimento ou substituição, mas simplesmente o tempo passa e a saudade deixa de ser algo ao qual nos torturamos diariamente. Nem seria saudável. Lembro-me de ti quando ando de carro com o pai e apareces naquele ecrã, lembro-me de ti obrigatoriamente dia 7 de Junho e dia 8 de Outubro, lembro-me de ti quando, por nenhuma razão, alguém te menciona ou eu sou “obrigada” a contar parte da minha vida. E, nessas alturas, já não costuma doer tanto. Já sorrio e penso apenas que gostava que tivesses tido direito a um bocadinho mais de tempo. Que gostava que eu tivesse tido um bocadinho mais de tempo para me redimir do tempo em que não te dei a atenção que merecias. Mas depois existem noites como a de ontem em que, enquanto procurava o trailer de um filme que está no cinema sobre os teus amigos de quatro patas, veio tudo cá a cima.

Não me lembro que dia da semana era, nem do mês. O ano também me falha, mas aponto para 2004. Eras pequena, peluda e acho que a tua cabeça nunca voltou a ser tão redondinha. Ficaste registada no meu nome e no da Inês. Não me lembro perfeitamente da viagem, mas nem sei como não enjoei com o banco virado para trás só para poder ir a olhar para ti. Meu deus, eras mesmo pequena, cabias no banco de trás e tudo. O teu pêlo ainda não estava queimado pelo sol – nunca devia ter estado.

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Nunca fomos perfeitos para ti, na verdade, foste a primeira e acho que nunca se sabe muito bem como fazer as coisas. Nunca fomos perfeitos para ti, mas tentamos sempre que fosses feliz. Sabíamos que não ia ser uma vida fácil, tu já tinhas avisado; não foi mesmo. Não foram poucas as partidas que nos pregaste, mas tu lá ias fazendo o que era suposto.

Janeiro 2011. Acho que foi a primeira vez que tive medo a sério na minha vida. Eu e a Inês já não sabíamos o que havíamos de fazer, mas o pai e a mãe souberam e acho que tivemos consciência, os cinco, de que dali para a frente não ia ser mais fácil. Tomamos a decisão certa nesse dia – não havia dinheiro nenhum no mundo que nos fizesse abdicar de ti. Foste um osso duro de roer, como sempre, com tudo o que te ia acontecendo. E nós lá íamos fazendo o que podíamos.

Outubro 2013. Acho que foi a primeira vez que sofri a sério na minha vida. Nunca mais me esqueço daquela chegada a casa depois do ginásio. Ver a garagem aberta, com as tuas coisas cá fora – nada me fazia prever aquilo. Nada me tinha preparado para o que ia sofrer naquelas duas ou três horas seguintes. Mas, novamente, não havia outra decisão a tomar. Quem me dera que tivesse sido apenas necessário “dinheiro” como dois anos antes. Quem me dera que tivesse sido apenas mais um otohematoma ou outra coisa qualquer que já te tinha acontecido. Quem me dera que fosse apenas preciso usar funil – que fosse apenas mais uma operação. Mas não…

Não é nenhum dia especial: não é Junho, não é Outubro, não é Natal. Mas acordei com saudades tuas. E hoje, desde há muito tempo, é uma saudade difícil. Nunca tive de lidar com a morte próxima de mim – tu foste a primeira. E eu não sabia o que era isso da dor que fica sempre ou da saudade que nunca vai. É isso, a dor fica sempre, apesar de estar adormecida maioria das vezes. A saudade nunca vai, mesmo quando olho para aquele tripé que gostava tanto que tivesses conhecido. Hoje dói um bocadinho, hoje acordou comigo. Logo à noite deitar-se-à comigo e amanhã espero que volte apenas a saudade.

Tenho saudades tuas Indei. Sei que eles os três vão “morrer um bocadinho por dentro” quando lerem isto, mas também já ouvi dizer que é necessário extravasar os sentimentos. Espero que, pelo menos, estejas feliz à beira do Kurika. Nós por aqui estamos bem. Ah, e não te preocupes, o demónio já fez questão de usar tudo aquilo que nós te compramos e tu não quiseste. Aliás, fez questão de usar e de destruir.

Os teus dois cantinhos estarão sempre ali e os buracos dos cedros também, só para nos recordar o teu pequeno lado destruidor.

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